A História do Café em Capelinha


Pesquisa e texto por Tadeu Oliveira (com adaptações)


Capelinha, cidade do café

A implementação da cafeicultura na região de Capelinha deu-se devido a uma conjuntura de fatos ocorridos por volta de 1975.

Naquela época, uma fortíssima geada atingiu São Paulo, Paraná e o sul de Minas. Em 1972, no município de Machado, localizado no sul de Minas, ficava uma das áreas de maior renovação de café do Brasil. Todas as áreas de cultivo estavam ocupadas, o que deixou vários cafeicultores à procura de outras terras para plantar. A isto, juntou-se o problema da geada ocorrida no ano de 1975, que obrigou os cafeicultores a procurar outras áreas para o plantio de café.

Esta tarefa ficou incumbida ao Sr. Walter Palmeira, ex-prefeito de Machado, que havia terminado seu mandato eletivo em janeiro de 1973. Dirigia-se para o Triângulo Mineiro à procura de novas áreas, quando ficou sabendo que no Vale do Jequitinhonha havia alguns chapadões onde se plantava eucalipto e que o governo federal tencionava liberá-los para o plantio de café. O Sr. Walter Palmeira resolveu ir conhecer estas áreas para ver se realmente eram boas. Em Diamantina, procurou um agrônomo do IBC, mas o mesmo se encontrava em Belo Horizonte para saber se aquela região de chapada seria liberada ou não para o cultivo de café. O Sr. Walter se dirigiu então, juntamente com o Sr. Alair Alves Campos, enfrentando estradas de difícil acesso, até os municípios de Carbonita e Itamarandiba.

Walter Palmeira, o bandeirante expansionista que viabilizou a cafeicultura na região - Foto: Jornal de Machado

O Sr. Walter Palmeira voltou para Diamantina desanimado com as terras de chapada que vira, apesar de serem baratas. Lá, encontrando-se com o agrônomo do IBC, ouviu deste que infelizmente a região não havia sido liberada para o plantio de café, mas que em Água Boa havia áreas com financiamento para a cafeicultura e que, além do mais, havia samambaia. A presença desta é um prenúncio de que a terra é propícia ao plantio de café, porque a samambaia exige um clima ameno, fresco e úmido para o seu desenvolvimento.

Depois de muito relutar, o Sr. Walter Palmeira resolveu visitar a região de Capelinha, propriamente a região compreendida entre os municípios de Capelinha e Água Boa. Chegando na região, ele logo se entusiasmou, porque viu que realmente era uma região onde havia muita samambaia, cerca de 15 a 20 km saindo de Capelinha, em sentido a Água Boa. Qual foi sua surpresa quando, no distrito de Resplendor, que divide os municípios de Capelinha e Água Boa, viu uma lavoura de café formada e muito bem tratada! Esta lavoura pertencia ao capelinhense Dr. Jeová Lopes, e o Sr. Walter Palmeira encantou-se, porque corria o mês de julho e nesta época as lavouras não são muito bonitas.

Voltando a Capelinha, o Sr. Walter Palmeira começou a ser assediado pelos fazendeiros da região para que comprasse as terras destes, principalmente por saberem que ele havia sido prefeito de Machado e era cafeicultor. Usando da prudência, o Sr. Walter e o Sr. Alair ainda visitaram algumas outras lavouras formadas pelos Srs. Maurício Pimenta, Gentil Fernandes, José Maria de Oliveira Neves, José de Oliveira Martins e outros mais. Cada vez mais, impressionavam-se com o capricho destas lavouras que, apesar de pequenas, eram muito bem cuidadas.

Voltando para Machado, o Sr. Walter Palmeira contatou o agrônomo do IBC, Dr. José Leite, e o seu amigo e climatologista do IAC-Campinas-SP, Dr. Ângelo Paes de Camargo, para fazer um mapeamento da região. Logo, obteve respostas de que Capelinha era viável ao plantio de café, principalmente nas áreas de samambaia, uma vez que a altitude e a massa de ar que se instala na região causam muita queda de neblina, fazendo com que a umidade relativa do ar permaneça elevada, compensando a falta de chuvas.  E o mais importante: a região é livre de geadas.

Tranquilizado sobre as condições climáticas, quanto às questões de fertilidade do solo, o Sr. Walter não se preocupava, pois estava acostumado a cultivar em cerrado, o que é bem pior do que os solos da região.

Quinze dias depois, o Sr. Walter Palmeira, em companhia do agrônomo José Leite, retorna a Capelinha, adquirindo terras e aconselhando aos fazendeiros que não vendessem suas terras, e a quem não tivesse, que comprasse. Com ele, vieram inúmeros cafeicultores da região de Machado, dentre eles: Alair Alves Campos, Sebastião Tardiolli, Laércio Campos e Mileco.

As terras adquiridas pelo Sr. Walter ficam no distrito de Resplendor, no município de Água Boa, divisa com Capelinha. A maioria dos cafeicultores que chegaram também se estabeleceram nesta região, porque Água Boa pertence ao Vale do Rio Doce e já contava com financiamento para o café.


Rodeado por plantações de café, o povoado Palmeiras de Resplendor, na divisa entre Capelinha e Água Boa, onde o Sr. Walter adquiriu suas terras nos anos 70 e onde hoje está instalada a Torrefação do Café Aranãs

Mas o Sr. Walter Palmeira, incansável na sua luta pela cafeicultura, não se acomodou. Devido à região ser o divisor de águas dos Vales do Jequitinhonha e do Rio Doce, usou de sua influência junto ao Dr. José de Paula da Motta Filho, Diretor de Produção do IBC, e solicitou o estudo de novos parâmetros para incluir Capelinha como área financiável, tendo em vista que a sua propriedade estava justamente na divisa com Água Boa, mas que beneficiaria inúmeros outros produtores.

Solicitou ao prefeito de Capelinha na época, Sr. Newton Ribeiro, e ao Sindicato Rural ofícios e com isso vieram fazer o reestudo da área o Dr. Ângelo Paes de Camargo, climatologista, o Dr. Alfredo Kupper, engenheiro agrônomo especialista em solos, e o Dr. Alcides Carvalho, geneticista. E assim, a área foi estendida até um local denominado Paiol Velho e pouco a pouco se expandiu a todo o município de Capelinha.

Esta foi uma das grandes vitórias do Sr. Walter Palmeira para a cafeicultura local, porque assim abriram-se financiamentos para o cultivo do café. Por sinal, esta foi a época do melhor financiamento agrícola já existente neste país, com juros baixos, sem correção monetária e com quatro anos de carência.


O advogado capelinhense Dr. Joaquim Vieira Otoni, Walter Palmeira e o ex-prefeito de Capelinha, José Ferreira de Oliveira - Foto: José Carlos Machado

Se por um lado o financiamento favoreceu a lavoura, por outro muitos cafeicultores advindos de Machado não conseguiram prosperar, porque passaram a utilizar o dinheiro do financiamento indevidamente, deixando a vaidade se apossar.

Lentamente, os fazendeiros da região que não venderam as suas terras foram começando a acreditar na viabilidade do café. Muitos chegaram a vender suas terras, pensando estarem enganando os cafeicultores de Machado. Não por falta de alerta do Sr. Walter Palmeira, como bem lembra o ex-prefeito de Capelinha, Sr. Maurício Pimenta. O Sr. Walter sempre frisava que o café é uma indústria sem chaminés e ajuda na distribuição de renda da região.

Alguns anos depois, chegaram os portugueses, por intermédio de Dr. Onofre Braga de Faria. A maioria destes portugueses eram cafeicultores em Angola e, como este país passava por uma revolução, vieram a se estabelecer em Vila dos Anjos, hoje a cidade de Angelândia.

Em 1979, o Sr. Sérgio Meirelles veio se estabelecer na região, comprando terras no local onde hoje é o município de Aricanduva. É aí que começa uma outra história: a do Café Aranãs.


O GRUPO DOS OITO: CAFEICULTORES DE CAPELINHA

Se por um lado a cafeicultura de Capelinha agradece ao Sr. Walter Palmeira, por outro há de agradecer aos pioneiros locais que, sem nenhum conhecimento técnico e científico, acreditaram na cafeicultura.

O Sr. Maurício Pimenta havia terminado o seu mandato eletivo, entregando o cargo de prefeito de Capelinha em janeiro de 1973. Ele lembra que, por esta época, o Dr. Jeová Lopes chegou com uma história de que Capelinha tinha todas as características para o cultivo do café e que o Banco do Brasil estaria financiando o plantio. Então, o Sr. Maurício Pimenta reuniu-se com alguns amigos, notando que era a oportunidade de eles poderem realizar alguma coisa em benefício do povo de Capelinha. Aqui havia mão de obra, mas não existia trabalho.

A esta reunião de amigos entre o Sr. Maurício Pimenta e o Dr. Jeová Lopes, juntaram-se os Srs. Gentil Fernandes, José Maria de Oliveira Neves , conhecido como Zuzinha, Zezinho Moreira, Eufrásio e José de Oliveira Martins, conhecido como Zé Batatinha. Foram ao banco e lá se prontificaram em fazer o financiamento. Começaram com o cultivo sem nenhuma técnica, pois ninguém sabia nada de cafeicultura e não havia agrônomo. A única oportunidade técnica foi um treinamento feito por Zuzinha, que plantava tomate, em Teófilo Otoni.

Com muita dificuldade, estes pioneiros formaram suas lavouras. A maior proposta nesse tempo foi a lavoura do Sr. Maurício, com 40 mil covas. Já o Sr. Gentil Fernandes sempre desejara plantar café. Desde os tempos de moço, quando saía da região para trabalhar em São Paulo, desejava ter lavouras como aquelas das terras paulistas. Depois de alguns anos, conseguiu comprar uma pequena propriedade, bem próxima à zona urbana de Capelinha, e foi comprando mudas de plantadores que as cultivavam em matas sombreadas e as vendiam na feira, formando assim sua pequena lavoura.

Quando, em 1973, o financiamento foi aberto no Banco do Brasil, o Sr. Gentil conseguiu dinheiro para três mil covas. Daí a algum tempo, mais um financiamento garantiu-lhe mais quatro mil covas que, juntando-se a mais cinco mil mudas plantadas e financiadas no terceiro ano e mais três mil mudas plantadas com recursos próprios, totalizariam 15 mil covas.

O Sr. Gentil Fernandes faz questão de lembrar que a terra por ele adquirida era um cerrado e, mesmo sem nenhuma tecnologia, conseguiu formar lavouras vistosas. A adubação era orgânica e a destoca, feita no enxadão. Ele lembra que o primeiro dos capelinhenses a plantar e acreditar na cafeicultura foi o Dr. Jeová Lopes, hoje residente em Sete Lagoas.

Quando estes cafeicultores estavam na primeira colheita, chegaram aqui o Sr. Walter Palmeira e o Sr. Alair, visitando as lavouras destes pioneiros. O Sr. Walter e os outros cafeicultores de Machado começaram a comprar terras e a se reunir com os produtores capelinhenses.


Reunião com cafeicultores no tempo do desbravamento - Foto: Folha Machadense

O Sr. Maurício lembra que as primeiras palavras dele foram: "Gente, eu notei que em Capelinha, nesta região aqui, produz café. Vocês têm o que eu não tenho e eu tenho o que vocês não têm. Vocês têm a terra e eu não tenho o clima. A terra eu faço e o clima, só Deus. Aqui não tem geada. Podem começar a plantar café. Eu estou comprando terras aqui. Aconselho a quem tem, não vender e, a quem não tem, comprar."

O Sr. Maurício Pimenta achou-o um sujeito extraordinário, porque ele poderia comprar todas as terras de todos eles, e todo mundo naquela ocasião queria vendê-las. O pessoal apertava-o para falar com o Sr. Walter para comprar as suas terras. Mas era homem honesto e sincero que sempre se pautou. Capelinha deve tudo em relação à cafeicultura ao Sr. Walter Palmeira. O Sr. Maurício afirma que, na época, ninguém acreditava nem no Dr. Jeová, nem no restante da "turma dos oito", porque eram gente da terra. Somente com a chegada do Sr. Walter Palmeira é que a coisa realmente desenvolveu.

E com o café, veio o progresso de Capelinha, e o Sr. Maurício Pimenta sentiu-se satisfeito porque, quando conseguiram espalhar o plantio de café na região, notou que em pouco tempo as condições de vida do povo melhoraram. "O dinheiro na região de gado, o dinheiro é preso entre o pecuarista e o banco. Na cafeicultura não, o dinheiro é solto, é distribuído, todo mundo participa dele. Os casebres se transformaram em boas casas, o pessoal deixou de andar de pé no chão, começaram a se calçar e andar bem vestidos, as moças com os dentes bem tratados e eu vi a alegria que reinou em todo o povo", lembra o Sr. Maurício.

Quando o preço do café caiu, em 1976, o Sr. Maurício escreveu uma crônica intitulada "E o Vento Levou...", no Jornal Folha do Vale. Nela, ele diz que a queda de preço quase os levou ao fracasso. Mas ele recorre a um antigo ditado sobre a crise: "Os antigos dizem que o café num ano veste o dono e no outro vai se vestir". E completa que "Com a ajuda de Deus, tudo voltou ao normal e o povo hoje conscientizou-se da situação. Muita gente tem sua terrinha com café, apesar da atual crise. O clima não é clima de gado. A terra é bem dividida, cada um tem um pouquinho. O café dá serviço para todo mundo na cidade, mão de obra para as cidades vizinhas e até de outras regiões longínquas."


A cafeicultura foi determinante para que Capelinha se tornasse um polo regional no Vale do Jequitinhonha

Quando o Sr. Maurício Pimenta saiu da prefeitura, em janeiro de 1973, dando lugar ao prefeito Newton Ribeiro, já em março começou na cafeicultura. Então, em mais uma crônica no Jornal Folha do Vale, sugeriu que o prolongamento de Resplendor até Capelinha deveria se chamar "Palmeira Florida", numa justa homenagem ao Sr. Walter Palmeira. "Há 20 anos atrás, era bem diferente. Ninguém tinha carro, nem trator, o povo ia trabalhar a pé. A melhor maneira de promover uma região é o trabalho. Tendo trabalho para o povo, está se fazendo um grande bem para o país. Aí, eu pergunto: foi ruim? Não, lógico que não! Foi Maurício? Foi Dr. Jeová? Foi Zuzinha? Não! Foi Seu Walter Palmeira! Sua chegada deu o impulso necessário para o desenvolvimento da cafeicultura. Um homem extraordinário para o futuro e para a história de Capelinha" - palavras do Sr. Maurício Pimenta.

Hoje, Capelinha já é um polo de destaque no cenário nacional, tendo grandes, médios e pequenos cafeicultores. Muitas lavouras já são irrigadas e mecanizadas, com safras em torno de 400.000 sacas.

Portanto, se o Sr. Walter Palmeira acertou em cheio, não é só o Vale do Jequitinhonha que o agradece por isso, mas também o Café Aranãs, que desde o seu início recebeu apoio e incentivo por parte deste grande homem.


Faixas nas ruas de Capelinha prestam homenagem a Walter Palmeira na ocasião de seu falecimento, em 2004 - Foto: Foto Silva

Além da amizade, o Sr. Walter concedeu um espaço dentro de suas terras para as instalações da Torrefação BIA, propriedade do Sr. Sérgio Meirelles Filho, onde o Café Aranãs, o Café Resplendor e o Café Varietal são torrados, moídos e preparados para chegar à sua mesa.


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